Académica Marion Nestle andou a ser vigiada, não pelos serviços secretos de qualquer potência, mas por gigantes da indústria alimentar, como a Coca-Cola. A catedrática, que foi diretora do Departamento de Nutrição, Estudos de Alimentação e Saúde Pública na Universidade de Nova York, de 1988 a 2003, podia estranhar que pessoas ligadas à famosa firma fossem tomando notas na sua conferência em Sidney, mas não desconfiava que tudo o que dizia seria transmitido aos principais executivos da multinacional.
A revelação surgiu no meio do material que a WikiLeaks – a plataforma digital que tem divulgado documentos secretos e informações confidenciais de governos e de empresas – difundiu sobre a interferência de piratas informáticos russos na última campanha eleitoral americana. Um dos emails reproduzidos, datado de janeiro de 2016, foi enviado pelo diretor da agência australiana de relações públicas da Coca-Cola para a cúpula da empresa, sediada em Atlanta (EUA). Além das anotações sobre a sua intervenção na Sociedade de Nutrição da Austrália (“muito bem feitas”, admite Marion), sugeria a necessidade de se monitorizar as suas palestras, pesquisas científicas e atividade nas redes sociais. O presidente da Coca-Cola South Pacific, Roberto Mercadé, reagindo ao artigo do Sydney Morning Herald com o título ‘Revelado: plano da Coca-Cola para monitorizar académicos’, de 22 de outubro de 2016, negou qualquer projeto secreto da empresa para controlar os universitários.
Não espanta esta especial atenção sobre Marion Nestle depois do livro ‘Soda Politics’ (Política do Refrigerante), de 2015, cuja capa tem a icónica garrafa da Coca-Cola e em que a autora se insurge contra os lucros multimilionários da venda de um produto de baixo custo: quase só água, açúcar e uma substância caramelizada. E onde expõe a forma como a Coca-Cola e a Pepsi-Cola, através dos ‘milagres’ da publicidade, conseguem promover as vendas e quais são os impactos negativos do consumo destes refrigerantes – apresentados como se fossem dieteticamente tão puros como a água potável – na saúde pública. Ainda por cima, adianta como se poderia contrariar esta tendência, através de campanhas para se conseguir um padrão alimentar mais salutar.
Estudos por encomenda
Numa época de abundância, em que se produz o dobro da comida necessária para a população americana, as marcas têm de conseguir criar maior apetência nos potenciais compradores. E adotam estratégias mais subtis (mas bastante eficazes) que as das tabaqueiras ou as do setor farmacêutico. A pura lógica económica não tem preocupações com as doenças do indivíduo nem com a sustentabilidade ambiental.
Marion questiona mesmo certos estudos científicos, publicados em reputadas revistas, sustentando que a indústria corrompe a investigação para manter os seus lucros. No seu mais recente livro, ‘Unsavory Truth – How Food Companies Skew The Science Of What We Eat ‘(A Verdade Desagradável – Como as Empresas Alimentares Distorcem a Ciência do que Comemos), publicado em outubro deste ano, sublinha que muitos dos resultados divulgados são mais marketing do que Ciência, pois são pagos pelas empresas que vendem esses alimentos. E avisa que é preciso desconfiar quando se lê que um chocolate é saudável para o coração, determinado iogurte previne a diabetes ou as amêndoas reduzem o risco da doença coronária. Como explicou numa entrevista ao ‘El Confidencial’, “se um estudo sobre um único alimento apresenta benefícios fabulosos, procure saber quem o financiou”.
A sua reputação é tão vincada que o jornalista e ensaísta Michael Pollan, numa seleção para a revista ‘Forbes’, em 2011, dos “sete especialistas em alimentação mais poderosos do mundo”, logo após Michelle Obama (a mulher do então Presidente abordou o facto da obesidade infantil se dever à comida fast food), deu o segundo lugar a Marion Nestle, considerando que “é uma voz indispensável sobre os problemas da dieta americana e as suas raízes no marketing industrial e na política do governo”. E na recensão de ‘Food Politics – How The Food Industry Influences Nutrition And Health’ (Política Alimentar – Como a Indústria Alimentar Influencia a Nutrição e a Saúde), que até está traduzido em japonês e em chinês, Eric Schlosser (autor de ‘Geração Fast Food’, adaptado ao cinema por Richard Linklater) aconselhava: “Se você come, você deve ler este livro.”
Além de uma dezena de obras e da colaboração em documentários cinematográficos, Marion Nestle foi cronista do San Francisco Chronicle, no qual assinou, até 2010, a coluna ‘Food Matters’, e, aos 82 anos – tentando sempre que cada cidadão se torne um consumidor informado, crítico e sensato –, continua a escrever quase todos os dias no Twitter e no blog ‘Food Politics’.
Fonte: CM (Portugal)